segunda-feira, 14 de maio de 2012

Começo por uma evocação pessoal. Em fins de março de 1977, estava eu em Natal, a proferir curso para professores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, quando tentei restabelecer contacto com Câmara Cascudo, que eu conhecera anos antes, aqui em Fortaleza, no Instituto de Antropologia (UFC) e com quem me correspondia. Por questão de saúde, as visitas estavam suspensas. Vali-me de uma das alunas, amiga da família, para obter esse privilégio: a entrevista fora marcada para as 15h00 do dia 30. E na hora aprazada lá estava eu no endereço do célebre casarão em que residia, na Avenida Junqueira Aires, n.o 377, naquela tarde morna da casa-grande batida de sol. A despeito de sua idade avançada, recebeu-me jovial, indicou-me uma cadeira de balanço, deu-me uma tábua, caderno e lápis e foi dizendo: «Aqui nesta casa só eu falo e se o Senhor tentar fazê-lo, está a perder tempo, pois seu velho amigo está surdo como esta madeira!» Estabeleceu-se assim insólito diálogo, em que eu escrevia minhas indagações e ele espargia sua sabença ilimitada. Já era noite quando me levou para o interior de sua biblioteca e me presenteou com seu precioso Religião no Povo, em que inseriu cartão de visita, onde escreveu com letra firme este oferecimento generoso: «Para o confrade Eduardo Diatahy B. de Menezes – grata saudação à sua presença, 30/III/77, Luiz da Câmara Cascudo. » Foi nossa despedida, pois não voltei mais a vê-lo pessoalmente. Este ano de 2006, o vigésimo após sua morte, é ocasião propícia a recordar a existência marcante e fecunda de Mestre Cascudo, esta fonte inesgotável de sapiência de nossas coisas, Este brasileirista -como lhe chamou Carlos Drummond de Andrade - cujo centenário de nascimento se comemorou no dia 30 de Dezembro de 1998

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